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31/07/2013

Programa Agricultura Familiar e Agroecologia

Conhecimento: entre a comida industrializada e a produção de alimentos saudáveis

A formação promovida pela Anama entre maio e junho, com o objetivo de aproximar agricultura familiar, alimentação escolar saudável, educação alimentar e ambiental, foi dividida em três módulos. No primeiro deles, que teve como tema “Da agricultura familiar à mesa das escolas: ressignificando à alimentação escolar”, questões como a produção de alimentos no Brasil e a agroecologia, e a sustentabilidade da cadeia dos alimentos da agrobiodiversidade para garantia da segurança alimentar e nutricional foram abordados.

 

Na exposição dialogada com a nutricionista Mariana Oliveira Ramos e o agricultor Rodrigo Wolff, discutiu-se sobre a alimentação básica ao longo do tempo e quem a produz, desde a Revolução Agrícola de 1800, a Revolução Verde, nos anos 50, Agricultura Ecológica nos anos 80 e os novos manejos atuais. Também sobre as diferenças entre a agricultura familiar, colonial e patronal, de produção em escala comercial. Ainda sobre a necessidade de agir com mais consciência em rotinas do dia a dia, percebendo a sazonalidade dos alimentos, refletindo sobre a grande velocidade com que normalmente as pessoas se alimentam e a repetição, sempre com as mesmas coisas no prato. Temas como a alta industrialização alimentar, a redução do aleitamento materno e o aleitamento envenenado através do uso dos agrotóxicos também foram debatidos.

 

Leia aqui a primeira matéria sobre a formação em educação alimentar e ambiental.

 

“Educação Ambiental como um dos alicerces da produção de alimentos saudáveis” foi o mote do segundo módulo. Neste dia, ocorreu uma saída de campo para visitar a propriedade do Sr. Euclides, no Morro da Borrúcia, em Osório, para conhecer um pouco da história de vida dele, da família e a produção ecológica da propriedade. Aproveitando a vivência na terra, a turma se dividiu para participar das oficinas que foram realizadas no local: Agrofloresta; Controle ecológico de pragas e fertilidade dos sistemas;  Compostagem; Agroindústrias familiares e processamento dos frutos da palmeira juçara.

Antes disso,  a engenheira de alimentos Fabiana Thomé da Cruz falou sobre os impérios alimentares que ditam os padrões seguidos por boa parte da população na hora de se alimentar. No Brasil, cerca de 30% dos alimentos consumidos são ultraprocessados. Em países como Estados Unidos e Reino Unido a situação é ainda mais grave, com este percentual atingindo a casa dos 70%. Lá, estima-se que as pessoas gastem em média apenas 10 minutos do dia na cozinha.

 

Existe um contexto de incertezas em relação à alimentação das pessoas ,e suas repercussões na saúde. Muitas vezes, a população é transformada em cobaia de estratégias industriais que promovem a venda em massa de alimentos, sem que as empresas se responsabilizem pelos efeitos colaterais que estes ingredientes possam causar em quem os consome, no decorrer dos anos. Mas esta lógica de domínio de grandes marcas também proporciona, por outro lado, um movimento que reconhece a importância dos alimentos de produção tradicional e que envolvem o cultivo rural como força contrária a esta corrente de produção massificada.

 

Foi justamente para valorizar a diversidade de alimentos que ainda se pode encontrar no Brasil, que um Painel da Sociobiodiversidade foi montado neste dia, com plantas, mudas e raízes que a terra oferece a fim de experimentar, conhecer e provar as tantas riquezas dos alimentos da região do litoral, da Mata Atlântica.

 

Aproveitamos a presença nas atividades da engenheira de alimentos Fabiana Thomé da Cruz para conversar um pouco mais sobre assuntos nos quais ela reflete em seu trabalho. E a questão central parece começar com a pergunta:

 

“Qual modelo de produção de alimentos se quer?”


Por que 10 empresas controlam a alimentação no mundo? O que isso representa tanto para a produção quanto para o consumo de alimentos na sociedade?

Estas 10 empresas são emblemáticas deste processo de concentração dos alimentos, tanto no âmbito da produção primária, quanto do processamento e também da distribuição. Também está presente na questão dos agroquímicos. A gente tem poucas empresas dominando e controlando a distribuição no âmbito internacional. Isso representa toda uma lógica e direcionamento dos padrões dos modos de se alimentar, que vão tendendo a ficar mais homogêneos, mais padronizados. Dentro desta lógica, acaba que tudo o que é diferente, diverso e singular de cada região vai sendo, de uma maneira ou de outra e no decorrer do tempo, pasteurizado. E a tendencia é que cada vez mais as pessoas se alimentem das mesmas coisas, aqui ou em qualquer outro lugar do mundo.

 

 

Mas está tudo perdido? Quais são os caminhos que você imagina que possam ser tomados para mudar esta situação?

A leitura que eu faço, comparando a situação do Brasil com a de países onde a industrialização da produção de alimentos e do processamento e da distribuição não é tão intensa, é que por outro lado você tem casos, por exemplo, como o do Norte da Europa e dos Estados Unidos, onde a industrialização de alimentos e a concentração da distribuição é muito mais presente do que no Brasil. Aqui, este processo de industrialização já vem acontecendo, mas a gente está num ponto crucial de pensar e definir enquanto país qual modelo se quer. Um modelo que vá na direção da homogenização ou que tenda a manter a diversidade. Me parece que qualquer possibilidade de mudança ou repensar seriamente este processo que vem acontecendo, está estreitamente associado à valorização da produção de alimentos pela agricultura familiar, por quilombolas, pelas comunidades indígenas, por toda a diversidade que é constituinte do Brasil.

 

 

Mas tu um movimento no Brasil neste sentido? Porque todas as informações que a gente tem é cada vez mais o predomínio da monocultura, o país como fornecedor de commodities para o mundo inteiro. Inclusive, o próprio feijão, metade do que a gente come está vindo da China...

E já existe também uma semente de feijão transgênico, desenvolvido pela Embrapa, com a explicação ou desculpa de que é preciso que se produza uma variedade de feijão que se adapte a todas as regiões brasileiras, negligenciando que cada uma das variedades está adaptada aos diversos biomas. Se a gente olha para todo este movimento bem amplo que acontece e pensa na evolução e crescimento do agronegócio, o que fica premente é que sim, o processo de homogeneização avança. Mas eu também acho que se a gente se vincular somente a esta perspectiva, a possibilidade de propor alguma mudança diminui, porque se a gente já entende que é isso que está dado, o que cabe às pessoas, aos cidadãos? Não há nada que se possa fazer? Eu acho que algumas coisas podem ser feitas e já existem algumas políticas no sentido da valorização, porque se a gente segue esta lógica de país colônia, colonizado, a gente sempre tenta seguir os passos do que os nossos colonizadores fazem ou determinam, e qual é o contexto da Europa?

Eles perderam boa parte do conhecimento das práticas e técnicas de produção agrícola, que foi, em grande parte, principalmente no Norte da Europa, erodido. E agora todo o processo deles é de investir bilhões, as cifras são assustadoras, no sentido de reverter isso, de tentar retomar os conhecimentos, as feiras, as práticas, os modos de produção. E o que fico me questionando seriamente é: será que o Brasil tem que dar o passo no sentido de erodir o que tem pra depois se dar conta de que para ter uma alimentação adequada, saudável, é preciso rever todo este processo e aí reinvestir? Então me parece que se a gente também se inspirar, seguindo a lógica do colonizado, de olhar o que está posto e o que aconteceu na Europa, a gente não precisa dar o passo adiante, o passo que eles deram, porque agora eles já estão retornando. E, se eles já estão retornando, por que a gente está seguindo no outro sentido?

 

 

Porque alguém precisa assumir o que eles estão abandonando, que é cumprir este papel de tocar este sistema adiante... Eles (os países ditos de primeiro mundo) chegaram no limite (da exploração) e agora estão passando para outros assumirem isso...        
Isso que me questiono: a quem cabe, a que instituições, como a sociedade civil organizada poderia contribuir para estimular que o processo vá na contramão do que está sendo pressionado a seguir?

 

Você acha que trabalhos como o teu e o da Anama podem ajudar a reverter a situação? São   trabalhos que fazem uma resistência importante?

Acho que a gente não pode falar em reverter. É difícil pensar que poderia haver uma revolução e que agora este modo de produção tradicional vá se sobrepor ao convencional. Acho que não é disso que se trata. Mas acho sim que este tipo de trabalho que a Anama vem fazendo, que tem este cunho educativo pode, pelo menos, colocar um pouco mais de equilíbrio nesta balança, pode, pelo menos, deixar as forças menos desiguais, contribuir para que os consumidores tenham efetivamente condições de escolher. E, se escolherem, poderem acessar os alimentos que eles querem consumir e não seguirem maquinalmente escolhendo os alimentos que o sistema nos coloca na mesa como se isso fosse natural, como se não coubesse nenhuma reflexão sobre tudo isso.

Acho que é neste sentido que todas estas ações que vêm sendo feitas pela Anama e por outras instituições são extremamente importantes e que acabam de alguma maneira se conectando. Se a gente fica um pouco desmobilizado, quando escuta bons relatos como o da Maura e o da Inês (professoras que desenvolvem atividadaes bem sucedidas em educação ambiental - veja mais na próxima matéria sobre a Formação), dá um ânimo de pensar que nem tudo está perdido.

*Este curso contou com a parceria da Rede de Educação Ambiental do Litoral Norte do RS, da Faculdade Cenecista de Osório/FACOS, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, do Núcleo de Estudos em Desenvolvimento Rural e Mata Atlântica/DESMA e do Núcleo de Estudos em Segurança Alimentar e Nutricional/NESAN.

 

 

 

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